Meu querido B.Resolvi escrever esta carta que não sei se é de amor, já que é impossível prever que rumo ela vai tomar. O que sei é que talvez seja a última. O último escrito, a última declaração espontânea. Depois destas palavras, só na presença do meu advogado! Então, aperte os cintos e aproveite este último rastro / contato / palavras que terá de mim. Já que é tão difícil me fazer entender, escolho calar-me para você agora, para o resto de meus dias. Melhor assim, talvez. Desculpe-me a incompetência... por não ter conseguido te fazer me enxergar como alguém que realmente se importava com você, que queria seu bem, sua felicidade... e só não queria se machucar mais com nomes e histórias que lhe doem os ouvidos e a alma.
Queria que você soubesse que parte de mim te odeia por todo o sofrimento que me fez passar (e que não foi pouco), pela traição, pela mentira e toda a espera em vão. Dois anos perdidos. Dois anos esperando o dia em que acordaria do seu lado com a certeza de que também seria assim nos próximos sem culpa, sem medo, sem nomes... Mas aí eu acordava com você num dia e já tinha que recolher minhas roupas com pressa, porque tinha outra pessoa te esperando. Passava um tempo e eu acordava de novo com você, mas não sabia se no dia seguinte ouviria sua voz outra vez. O tempo foi passando... mas o tempo do fim da espera nunca chegou. Dois anos. Em dois anos eu não consegui fazer você voltar para mim. Dois anos é muito tempo! Dois anos é uma vida. Incompetência tem limite.
Eu te amava tanto que pensava que todo aquele amor fosse suficiente para eu te ter de volta, para te fazer feliz, para me tornar a mulher perfeita para você. A que caberia mais perfeitamente nos seus sonhos e na sua vida. Mas me enganei. Só aquilo não bastava. A minha vida e meus horários são comuns demais para caberem no seu calendário. Trabalho de segunda a sexta, só tenho férias uma vez por ano (quando tenho)... ganho o meu dinheiro, pago as minhas contas... Não tenho como ir ao cinema com você às duas horas da tarde de uma quarta-feira. Nem tão pouco viajar para Cancun ou Las Vegas duas vezes por ano em qualquer uma das suas folgas... Enfim, talvez eu não seja o que você precisa e tenho que me conformar com isso. E talvez só amor e vontade não sejam suficientes. Você tinha razão.
Pena você ser o que em mim cabia. Na medida dos meus sonhos, o bom filho, o bom irmão, o bom amigo. Acho também que seria bom pai. Seria um pai bonito! A paixão de tirar o fôlego... a intensidade... É incrível como te admiro! A inteligência, o jeito engraçado de falar, as boas conversas, o arrepio que me dá... O teu cheiro bom, natural, que fica no meu travesseiro. Teu colo. O abraço que eu gosto de ganhar... era a pessoa com quem eu queria compartilhar os meus dias, meu coração, minha vida, minha família... meus sorrisos, minhas expectativas, meus escritos, minhas conquistas. Era a pessoa que eu queria que estivesse comigo na estrada. Era você o amor da minha vida.
Você me fez acreditar que o que tínhamos era especial. E, para mim, de fato era. Tudo o que eu queria era poder ter uma oportunidade de tentar fazer dar certo. Eu não tinha grandes ambições... só queria ser feliz! Te fazer feliz. Poder te mostrar coisas grandes e outras nem tanto. Viajar pelo mundo ou simplesmente andar de bicicleta num domingo de sol. Construir, viver, fazer ou apenas ver TV num dia frio qualquer. Poder descobrir isso que é a vida ao lado da pessoa que eu mais amei, que mais mexeu comigo de todas as maneiras possíveis. A que foi mais importante.
Perdoe minhas tentativas inábeis de fazer tudo isso dar certo. Eu fiz o máximo que eu pude. De verdade. E só quis ter uma chance, só uma de realizar sonhos e de materializar convicções e pensamentos. Enfim...Tenha certeza de que em toda a sua vida, eu fui a mulher que mais te amou e que fez o possível para estar ao seu lado.Depois de algum tempo eu percebi que tudo aquilo era loucura e que a busca era em vão. Rasguei as fotos, escondi suas coisas, bloqueei, excluí, limpei os móveis para não sobrar nem as suas digitais.